“Eu não sabia que virar pelo avesso era uma experiência mortal”

Fevereiro 14, 2011

Ontem conheci a história de uma poetisa brasileira que me fez perder o sono e mergulhar em seus devaneios. Foi por meio da bela peça do Paulo José, “Um navio no espaço”, que me encontrei, pela primeira vez, com Ana Cristina César (ACC).

Eu não estava imparcial neste encontro, o fato de saber que ela cometeu suicídio aos 31 anos, me deixou intrigada e motivada a descobrir quem foi essa mulher.

Não falarei aqui sobre sua vida ou seus aspectos psicológicos, até porque tive apenas um contato com esta poetisa e acho que minha leitura seria muito vaga e piegas. Fiquei sim com uma frase dela em minha cabeça, acho que por uma identificação absurda: “Eu não sabia que virar pelo avesso era uma experiência mortal”.

Eu há muito tempo penso nessa travessia pelas minhas experiências, que eu consiga me reconhecer naquilo que está no avesso do que sou. Mas eu entendia esse avesso como algo libertador e que me permitia um renascimento. Poderia encontrar um “eu” diferente daquele “eu” cotidiano que, por várias vezes, me angustia e me aprisiona numa definição de quem sou.

O que ACC me fez pensar é que este avesso também é uma experiência mortal e, talvez por isso, seja um processso que demande tamanha energia e desprendimento, pois nos retira de uma situação confortável e supostamente segura. O nosso avesso implica necessariamente na redefinição do “eu” habitual e , em certos momentos, na verdadeira morte de uma imagem que mantemos.

Mas disso tudo, pensei ainda mais: a experiência mortal não deve ser encarada sempre como algo negativo. A morte, real ou simbólica, me aflige tanto, pois me tira do que eu conheço, de algo que está ali e não estará mais. Implica necessariamente em mudança, o que significa dispêndio de energia e reorganização do meu estar no mundo. Contudo, a perda, nem sempre, é algo prejudicial.

Muito sem sentido? Não sei. Acho que não tenho maturidade para, em tão pouco tempo, conhecer apenas um fragmento da obra desta incrível poetisa e organizar muito bem minhas reflexões. Afinal, ACC catalisou um passeio inesperado pelo meu avesso. Ainda estou de luto.

Cena 2

Outubro 3, 2010

Um cavalo magro, uma bota surrada e um cantil de água.
Sob o sol do sertão, o sonhador peregrina com sua caixa de música.
Seus sonhos vão saindo pela caixa que, no silêncio árido, emergem como flores coloridas.

Cena 1

Outubro 3, 2010

Ela chega em casa, joga a bolsa e o casaco no sofá.
Abre um sorriso para aquele olhar estático que vem do seu quarto.
Olhar distante, carinhoso, intenso e morto. Apenas um retrato.
Tira a roupa. Nua, ela coloca o seu colar mais bonito e dança sozinha na sala.

Movimento

Outubro 3, 2010

Saracoteia teus medos.
Pião que rodopia, se segura para não cair.
Empina a pipa, que plana sem certeza do destino.
No pingo da chuva, alivia tuas dores e agarra-te no sorriso da criança.
Olha a borboleta, o arco-íris, a montanha, o trem!
A flor amarela do sertão suspira por um pouco de admiração…
Como um vendaval, passa a hora, o dia, a semana, o ano…a vida.

Cabeça, coração

Setembro 7, 2010

Coração chora.

Cabeça tenta ajudar coração.

Cabeça explica mais uma vez ao coração como são as coisas:

Você vai perder todas as pessoas que ama. Todas elas irão embora. Mas até a terra irá embora, um dia.

Então coração se sente melhor.

Mas as palavras da cabeça não duram muito nos ouvidos do coração.

Coração é muito novo nessa história.

Quero ter eles de volta, diz coração.

Cabeça é tudo o que coração possui.

Socorro, cabeça. Socorra o coração.

***

Conto de Lydia Davis

Entre nós

Agosto 29, 2010

Antes do desencontro, o diálogo entre olhares, a delicada comunicação silenciosa entre os corpos.

Antes do perdão, o vazio da noite, o rompante das lembranças, a vaga sensação do toque nos meus cabelos.

Eu sou eu no mais confuso de mim.

Te perco no mais misterioso do que passou entre nós.

Antes do amanhecer, adormeço pensando em que momento nos tornamos estranhos.

Inspirado no capítulo/poema “Entre nós” do livro “No mesmo Mar” do autor israelense Amos Oz.
Dedicado a M.A.C.N

Uma salva de palmas à pequena notável Mafalda!

Junho 13, 2010

Uma garotinha inquieta, questionadora e com uma curiosidade sem limites diante dos “mistérios” do ser humano e do mundo que habita. Assim defino a pequena Mafalda, personagem do Quino. Mafalda encanta com suas dúvidas sobre as relações humanas (Como seu pai podia se preocupar mais com o árbitro que deu falta para um jogador do que com a fome de zilhões de criancinhas no mundo?), as análises das posturas diferenciadas de seus amiguinhos (Miguelito, Manoelito, Susanita e Filipe) diante do mundo, entre outras divagações fantásticas que com o traquejo de uma criança, Mafalda questiona o mundo de uma forma sensível e brilhante.

Desde que li sua primeira tirinha (não lembro em qual jornal foi) me identifiquei em vários pontos com o jeitinho dela e hoje sou uma fã e devoradora de suas “historinhas”. Acho que eu não sou tão direta e sincera como ela, talvez porque já sou “grandinha” e minhas idéias passam pelo que penso ser o crivo social. Talvez seja por isso que tenho lido tanto as tirinhas da Mafalda, para tentar resgatar em mim um pouco a inocência das perguntas, da forma como as crianças fazem, e ao mesmo tempo continuar questionando tudo aquilo que não acho natural, mas que de certa forma, para os adultos já é considerado banal e ultrapassado indagar.

Pois bem, um dia eu estava bem à la Mafalda, um pouco insatisfeita como as coisas andavam (na categoria “coisas” cabe desde questionamentos profissionais, pessoais, políticos, filosóficos-existenciais e etc), quando fui presenteada com um livro da Mafalda (Número 3, em que Mafalda está diante de um globo, esta edição é dedicada aos Beatles,rs). Claro que abri um sorriso quando vi o livro, pensei “que coisa boa para meu dia, terei uma boa companhia, oba!”.

É impressionante quanto ensinamento uma criança pode nos dar!(essa bandeira em prol da sabedoria das crianças é muito forte em mim). Queria registrar a primeira tirinha que eu li do livro, foi tão significativo, parecia que a Mafalda direcionou o ensinamento para mim naquele momento:

A mãe da Mafalda está saindo e diz: “Vou ao mercado e já volto. Não abra a porta para ninguém, mesmo que a pessoa insista!” Mafalda responde “Tá bem.” A mãe já está no elevador, quando Mafalda grita “Mamãe, e se for a felicidade?”

Não precisa de comentários, né? Acho que as crianças abrem as portas pra felicidade mais facilmente que os adultos…

Como senti que a felicidade veio me visitar hoje, vou transcrever mais duas tirinhas da Mafalda.

Mafalda está deitada pensando (o globo está a seu lado): “Quando eu crescer, eu vou trabalhar de intérprete na ONU.” Ela começa a levantar-se em direção do globo, continua pensando: “E quando um delegado disser ao outro ‘Seu país é um nojo!’ Vou traduzir: ‘Seu país é um encanto!’ E então ninguém vai poder brigar, é claro!” Ela continua pensando:”E os conflitos e as guerras vão acabar, e o mundo vai estar a salvo!” Ajoelhada, ela olha para o globo e diz: “Isso se você me prometer que vai durar até eu crescer, viu?”

Essa é linda, me despeço deixando um beijo ao som dos Beatles!

Mafalda está assistindo um beijo novelístico na televisão, quando a mãe dela chega, desliga o aparelho e lhe entrega o livro “Pequeno Polegar” dizendo: “Toma, Mafalda, leia o ‘Pequeno Polegar’ que é muito melhor para a sua idade.” Mafalda começa a ler o livro “No escuro, pensando ser o Pequeno Polegar e seus irmãos, o ogro matou suas próprias filhas.” Ela levanta a cabeça: “Essa é boa! Sempre pensei que para qualquer idade um beijo é muito melhor que um crime”.

He Asked About the Quality

Maio 25, 2010

He came out of the office where he was employed
in an unimportant and poorly paid position
(up to eight pounds a month, with tips);
when he finished his tedious work
that kept him stooped all afternoon,
he came out at seven, and sauntered slowly,
gazing idly in the street. Beautiful
and interesting, he carried himself
as if he’d reached his full sensual potential.
He turned twenty-nine a month ago.

(…)

Poema de C. P. Cavafy

Pequenas divagações…

Maio 25, 2010

Qual a responsabilidade de uma formiguinha no mundo em que vive?

Não é exigir demais daquele pequeno ser a manutenção de todo um ecossistema?

Por que não deixar a formiguinha apenas ser feliz, e se preocupar com a alimentação de seus pares no inverno?

É dever da formiguinha preocupar-se com as consequências geradas por seres maiores que ela?

A formiguinha já sofre tantos tropeços em sua busca por alimentos…

Se o mundo fosse quadrado, será que a formiguinha cairia menos?

Travessia

Janeiro 30, 2010

Atravesso o avesso.

Despeço da certeza.

Tropeço no recomeço.

Me reconheço.