Ontem conheci a história de uma poetisa brasileira que me fez perder o sono e mergulhar em seus devaneios. Foi por meio da bela peça do Paulo José, “Um navio no espaço”, que me encontrei, pela primeira vez, com Ana Cristina César (ACC).
Eu não estava imparcial neste encontro, o fato de saber que ela cometeu suicídio aos 31 anos, me deixou intrigada e motivada a descobrir quem foi essa mulher.
Não falarei aqui sobre sua vida ou seus aspectos psicológicos, até porque tive apenas um contato com esta poetisa e acho que minha leitura seria muito vaga e piegas. Fiquei sim com uma frase dela em minha cabeça, acho que por uma identificação absurda: “Eu não sabia que virar pelo avesso era uma experiência mortal”.
Eu há muito tempo penso nessa travessia pelas minhas experiências, que eu consiga me reconhecer naquilo que está no avesso do que sou. Mas eu entendia esse avesso como algo libertador e que me permitia um renascimento. Poderia encontrar um “eu” diferente daquele “eu” cotidiano que, por várias vezes, me angustia e me aprisiona numa definição de quem sou.
O que ACC me fez pensar é que este avesso também é uma experiência mortal e, talvez por isso, seja um processso que demande tamanha energia e desprendimento, pois nos retira de uma situação confortável e supostamente segura. O nosso avesso implica necessariamente na redefinição do “eu” habitual e , em certos momentos, na verdadeira morte de uma imagem que mantemos.
Mas disso tudo, pensei ainda mais: a experiência mortal não deve ser encarada sempre como algo negativo. A morte, real ou simbólica, me aflige tanto, pois me tira do que eu conheço, de algo que está ali e não estará mais. Implica necessariamente em mudança, o que significa dispêndio de energia e reorganização do meu estar no mundo. Contudo, a perda, nem sempre, é algo prejudicial.
Muito sem sentido? Não sei. Acho que não tenho maturidade para, em tão pouco tempo, conhecer apenas um fragmento da obra desta incrível poetisa e organizar muito bem minhas reflexões. Afinal, ACC catalisou um passeio inesperado pelo meu avesso. Ainda estou de luto.