Travessia
Janeiro 30, 2010 por meucadernodonepalA escolha
Outubro 28, 2009 por meucadernodonepalNo canto do quarto, a solidão me chama: “Ei, psiu!”. Me oferece tranquilidade e conforto, “nada te pertubará”. Calmamente, me apresenta um cardápio de dias silenciosos e noites mudas. ” Os únicos ruídos virão do teu pensamento…” Começa a me seduzir com promessas de paz… Estou frágil, olho para a solidão e quero abraçá-la, jurar eterna fidelidade e, assim, tentar ser feliz.
A solidão aproxima-se, mas não me movo. Eu vacilo… A dúvida entra pela porta, e eu não sei o quê fazer. Ela abre as janelas, pega na minha mão e me leva para o jardim. Do lado de fora, eu conheço o mundo, aquele gigante disperto. Ele simplesmente sussurra: “Eu sei que tem medo, que não posso te dar garantias… Mas te ofereço possibilidades, os encontros e desencontros, venha e faça sua vida.”
A dúvida ainda me acompanha: a solidão tranquila ou o mundo incerto?
Fecho a porta, sem olhar para trás, começo minha caminhada pelo mundo.
O relógio.
Outubro 20, 2009 por meucadernodonepalTic Tac.
Joana olha o relógio, “estou atrasada”, e imagina a pequena Luísa esperando por ela na saída da escola. O sinal fecha, Joana pensa nas verduras que tem em casa e no jantar que irá preparar. Abre um sorriso ao visualizar a alegria da filha com os doces que comprou. Rapidamente programa o fim do dia com a família, “será que faço o dever com a Lú hoje?”, pensa que seria melhor ver um filminho com o marido e a filha. Olha o relógio novamente, “acho que vai dar tempo”. O sinal abre e Joana segue em direção à escola.
Tic Tac.
O sinal fecha. Daniela, na calçada, olha a caixinha de balas, pensa que faltará muito tempo para acabar de vender todas… Não sente mais a fome que lhe incomodava horas atrás. Com um rápido relance procura qual o carro seria o mais adequado para abordar, onde estaria um possível comprador de balas, uma análise muito apurada para uma menina de sete anos. Tenta se aproximar de uma das motoristas, porém a senhora esta muito concentrada com seus pensamentos, não repara que Daniela está ali. A menina olha rapidamente para o banco do passageiro e vê um belo embrulho transparente com doces, entristece, certamente a senhora não compraria balas, outra análise apurada. O sinal abre.
Tic Tac.
Luísa fecha sua mochilinha quando a professora pega na sua mão. “Hora de ir pra casa!”, pensa a garotinha de sete anos. Já imagina a mãe lhe esperando no portão da escola. No caminho até a saída, Luísa se anima com o fato de que em breve saberá o final da estória do ursinho contada por seu pai. “Aposto que ele ganha um irmãozinho!”, uma análise natural para uma criança de sua idade. A professora espera com Luísa uns cinco minutos até a chegada da mãe, enquanto isso a menina se distraía com outros coleguinhas. A mãe chega e Luísa corre para seus braços.
Tic Tac.
Maria olha rapidamente o armário improvisado, “quanto tempo durará esta comida?”. Volta para a sala de seu barraco, senta em frente da televisão, aumenta o volume para não ouvir o choro do bebê. Irrita-se com a demora do dinheiro trazido pela filha Daniela. “ Enquanto o dinheiro não chega, vou pendurar uma cerveja no buteco do José”, pensa. Mas acha melhor não, caso a filha chegue, e Maria não esteja em casa, corre o risco do ex- marido pegar o dinheiro. Resolve ficar em casa, aumenta ainda mais o volume da televisão.
Até quando vidas serão marcadas por tempos tão diferenciados?
Carta enviada aos familiares e amigos.
Outubro 15, 2009 por meucadernodonepal

Peregrinar é uma coisa interessante…caminhar, aprender, acho que o que mais pensei nestes dias foi na minha peregrinação pela vida.
A peregrinação exige um objetivo, ninguém anda kms já esgotado, sem comida, com os pés doendo se não acreditar que chegará a algum lugar ou a algum objetivo. Na vida é assim… vamos além daquilo que acreditamos que damos conta se tivermos um objetivo maior, foi lindo perceber isto. Superar as dificuldades, reconhecer os limites e dar sentido para aquilo que fazemos. O primeiro dia pensei em desistir, juro, foram 35 kms, 11 horas de caminhada e nada da cidade. Nos perdemos várias vezes, o que também desanima a caminhada, as falhas incomodam, né?
O segundo dia foi uma luta, o medo de começar e ser tão dificil como o dia anterior… Como na vida, a peregrinação é um aprendizado constante… A partir do terceiro dia aprendi a peregrinar, a saber quando o corpo precisa de descanso, de comida e de tempo para apreciar uma bela paisagem. Depois deste aprendizado tudo ficou fácil. Como o restante do caminho foi saboroso!
Chegar a Santiago foi uma emoção indescritível! Não sou das mais católicas, vocês sabem, mas a simbologia que depositei no local e toda mística que o caminho envolve, não tem como você não se emocionar e se comover. Sentei em frente da Catedral, debaixo da chuva e fiquei lá olhando aquela construção gigantesca… Nessa hora nada passou na cabeça! A emoção continuou quando entrei, me senti compelida a rezar, e foi tudo natural… Depois de um tempo lá dentro, você entende que conseguiu… Receber a compostelana, o certificado de peregrino, também é muito gratificante. Não só pelo papel, mas pelo rito e por estar num ambiente com outros peregrinos, e escutar as histórias de cada um.
Bom, já estou aqui de volta…Acreditando que posso realizar peregrinações maiores! Seja na minha vida pessoal, profissional, social… Queria compartilhar estas idéias com vocês.
Beijos e sejam eternos peregrinos!
Texto originalmente escrito em novembro de 2008, após a peregrinação até Santiago de Compostela.
E se o mundo fosse do avesso…
Outubro 14, 2009 por meucadernodonepalUm exercício que tenho feito muito na minha vida, é a tentativa de sair do meu lugar e me colocar no lugar do outro. Não é uma tarefa fácil, mas ajuda a pensar e sensibilizar para várias questões.
Fechei meus olhos. Me imaginei num país onde todas as pessoas andavam de cadeira de rodas, elas eram mais ágeis do que eu, pois as minhas pernas não conseguiam deslizar tão rápido. Depois imaginei as ruas todas com sinalizações sonoras, todo tipo de informação era falada: “pode seguir”, “são três horas da tarde”, “são 37 graus”, aquilo me enlouquecia, uma verdadeira poluição sonora! Mas os cegos conseguiam transitar facilmente… Cheguei numa escola onde as pessoas tinham habilidades diferenciadas das minhas, elas faziam coisas com os pés e com partes do corpo que eu nunca imaginei que serviam para aquele tipo de coisa! Pintar um quadro com um pé? Realizar uma dança e outros movimentos deitados? Eu não conseguia… era estranha a sensação. Será que eles são melhores que eu porque conseguem fazer tudo isso? O que eu posso ensinar a eles, e o que consigo aprender com estas pessoas que fazem coisas tão “malucas”?
Acho que é isto: O que eles ( pessoas com deficiência ou pessoas com habilidades diferenciadas?) podem me ensinar? O que eu posso ensinar a eles? E como fazer este ensino possível?
Para este diálogo ocorrer, necessitamos tanto de pessoas preparadas, uma mediação entre as habilidades se quisermos pensar desta forma, como uma estrutura física que permita o acesso de todos ao mesmo espaço. A sensação de não conseguir acompanhar as cadeiras de rodas, de não ter a mesma destreza com o tato que os cegos têm, não foi uma sensação muito integradora, acredito que o inverso também ocorra.
Continuo pensando que a tarefa é pensarmos nas diferenças, saber que elas existem e que elas possibilitam trocas riquíssimas. Porém para isto acontecer nós temos que abandonar a crença de que somos o centro, o normal, o melhor e o outro é quem deve se adaptar ao que ditamos. Os não portadores de deficiência só são este “centro” pois o número de indivíduos não portadores estão em maior número no mundo! Se fosse o contrário, se a dita deficiência fosse dominante, os não portadores seriam os “estranhos”. Será que é tão difícil perceber isto? Para mim, parece um pensamento tão simples, coisa que a sensibilidade de uma criança dá conta… Por falar em criança, gostaria de terminar esta reflexão com a sabedoria de uma criança sobre as diferenças:
“Tive uma professora que pedia que a gente tivesse um mapa-mundi no nosso quarto. Só que ela queria que prendessemos o mapa de cabeça pra baixo na parede, e que imaginassemos o mundo diferente. Quem estava em cima ficava em baixo e quem estava embaixo ficava em cima.
Eu adorava olhar aquele mapa, achando que tudo ficava invertido. Até que um dia eu descobri que quem ficava no meio continuava ali, sempre no meio, e eu não aguentei. Pus o mapa de lado mas não adiantava: o meio era sempre o meio. Pus no teto do quarto e nada. Meu pai me comprou um globo redondo- e sempre tinha um meio que nunca saía do lugar.
Acho que foi assim que descobri que o meio é…o equilibrio do mundo. E que todas as partes do mundo dão equilibrio ao meio. E que no equilibrio que todo o mundo fica igual.” (Heloisa Pires Lima, Histórias da preta)
Este texto foi originalmente escrito em setembro de 2008
O irreversível
Outubro 14, 2009 por meucadernodonepalAcho que a tristeza pela morte de alguém, é diferente de tantas outras tristezas. Parece que a felicidade ou acalento, após a dolorosa perda, só se sustentará na lembrança. Você nunca mais terá um momento de felicidade com aquela pessoa… Deparar-se com o irreversível, nossa, como é estranho!
Por isso, a dor do luto é fisicamente diferente, o mundo paraliza ao sabermos da notícia da morte, por um momento, as nossas sensações ficam suspensas. O tempo, o barulho da rua, a fome, o raciocínio, em um milésimo de segundo, tudo se desfaz. Como se nós também morrêssemos naquele momento. E realmente morremos!
Nós morremos, pois nunca mais seremos nós com aquela pessoa. A pessoa que eu era quando me relacionava com aquele que morreu, também se foi. O que era único entre nós, tudo que emergia quando estávamos juntos, tudo que eu era quando estava com aquela pessoa, agora é só lembrança. Eu, aquela face de mim, agora é só lembrança. Como dói, como é estranho, como é inaceitável, como é irreversível…
No escuro, a vela era protagonista.
Outubro 14, 2009 por meucadernodonepalEu e a vela, simplesmente.
Ela mais acima, de um ângulo em que a vejo ereta, imponente, brilhante. Não trepida muito, o que me faz pensar em estabilidade… Estabilidade… Palavra tão presente e distante em minha vida no momento. A luz se inclina, frágil estabilidade.
Uma chama… que queima, destrói… que ilumina, constrói. Tão intensa, tão efêmera.
Começo a pensar na materialidade do fogo. A água, eu consigo sentir. A terra pegar, cheirar. E o fogo? Do que ele é feito?
Olho intensamente para a chama… não consigo explicar o que é isto que vejo, é muito belo. Me hipnotizo, eu e a vela. Penso na desejada estabilidade, também penso no ardente, luminoso, passageiro.
Penso que quero apagar, eu e a vela.
O início, o caderno, os pensamentos.
Outubro 14, 2009 por meucadernodonepalTudo começou no dia que faltou luz em casa.
No escuro, me encontrei com o caderno. Sem luz em casa, minhas idéias clarearam e um caleidoscópio de pensamentos comecei a enxergar.
