Um exercício que tenho feito muito na minha vida, é a tentativa de sair do meu lugar e me colocar no lugar do outro. Não é uma tarefa fácil, mas ajuda a pensar e sensibilizar para várias questões.
Fechei meus olhos. Me imaginei num país onde todas as pessoas andavam de cadeira de rodas, elas eram mais ágeis do que eu, pois as minhas pernas não conseguiam deslizar tão rápido. Depois imaginei as ruas todas com sinalizações sonoras, todo tipo de informação era falada: “pode seguir”, “são três horas da tarde”, “são 37 graus”, aquilo me enlouquecia, uma verdadeira poluição sonora! Mas os cegos conseguiam transitar facilmente… Cheguei numa escola onde as pessoas tinham habilidades diferenciadas das minhas, elas faziam coisas com os pés e com partes do corpo que eu nunca imaginei que serviam para aquele tipo de coisa! Pintar um quadro com um pé? Realizar uma dança e outros movimentos deitados? Eu não conseguia… era estranha a sensação. Será que eles são melhores que eu porque conseguem fazer tudo isso? O que eu posso ensinar a eles, e o que consigo aprender com estas pessoas que fazem coisas tão “malucas”?
Acho que é isto: O que eles ( pessoas com deficiência ou pessoas com habilidades diferenciadas?) podem me ensinar? O que eu posso ensinar a eles? E como fazer este ensino possível?
Para este diálogo ocorrer, necessitamos tanto de pessoas preparadas, uma mediação entre as habilidades se quisermos pensar desta forma, como uma estrutura física que permita o acesso de todos ao mesmo espaço. A sensação de não conseguir acompanhar as cadeiras de rodas, de não ter a mesma destreza com o tato que os cegos têm, não foi uma sensação muito integradora, acredito que o inverso também ocorra.
Continuo pensando que a tarefa é pensarmos nas diferenças, saber que elas existem e que elas possibilitam trocas riquíssimas. Porém para isto acontecer nós temos que abandonar a crença de que somos o centro, o normal, o melhor e o outro é quem deve se adaptar ao que ditamos. Os não portadores de deficiência só são este “centro” pois o número de indivíduos não portadores estão em maior número no mundo! Se fosse o contrário, se a dita deficiência fosse dominante, os não portadores seriam os “estranhos”. Será que é tão difícil perceber isto? Para mim, parece um pensamento tão simples, coisa que a sensibilidade de uma criança dá conta… Por falar em criança, gostaria de terminar esta reflexão com a sabedoria de uma criança sobre as diferenças:
“Tive uma professora que pedia que a gente tivesse um mapa-mundi no nosso quarto. Só que ela queria que prendessemos o mapa de cabeça pra baixo na parede, e que imaginassemos o mundo diferente. Quem estava em cima ficava em baixo e quem estava embaixo ficava em cima.
Eu adorava olhar aquele mapa, achando que tudo ficava invertido. Até que um dia eu descobri que quem ficava no meio continuava ali, sempre no meio, e eu não aguentei. Pus o mapa de lado mas não adiantava: o meio era sempre o meio. Pus no teto do quarto e nada. Meu pai me comprou um globo redondo- e sempre tinha um meio que nunca saía do lugar.
Acho que foi assim que descobri que o meio é…o equilibrio do mundo. E que todas as partes do mundo dão equilibrio ao meio. E que no equilibrio que todo o mundo fica igual.” (Heloisa Pires Lima, Histórias da preta)
Este texto foi originalmente escrito em setembro de 2008